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Se
bem que não seja possível situar com exactidão o começo da história
desta raça, julga-se que ela terá tido o seu início no princípio do
período pré-histórico, quando grupos de famílias nómadas de origem
mongol, quer empurradas por situações de conflito com os povos mais a
sul, quer em busca de outras condições de vida,
começaram a
deslocar-se em todas as direcções. Algumas destas tribos, acompanhadas pelos seus cães, migraram para o
Árctico, tendo acabado por, pelo menos 1000 anos a.C., se distribuírem
ao longo de toda a faixa litoral desde o Mar Branco até à península
do Taimyr e, para o interior, nas imensas extensões de tundras até ao
rio Yenisei.
Fisicamente caracterizadas por serem de baixa estatura (1,45 m nos
homens e 1,30 m nas mulheres), terem pele escura amarelada, maçãs do
rosto salientes e narizes côncavos, estas tribos acabaram por se tornar
conhecidas essencialmente por duas razões: os cães que possuíam e a
forma como os tratavam. Sendo gente calma, bondosa e muito sociável,
mantiveram ao longo de muitas gerações um grande amor pelos seus
cães, tratando-os como verdadeiros membros da própria família. Nunca
lhes batiam, treinavam-nos exclusivamente através da voz, partilhavam
com eles os alimentos, permitiam-lhes que entrassem nas suas casas (chooms)
e até nas próprias camas, onde serviam de verdadeiros aquecedores.
Utilizavam-nos na caça, no pastoreio e guarda dos rebanhos de renas
(caribu), no transporte dos seus haveres puxando os trenós e chegavam
mesmo ao ponto de atribuir a cada um dos cães um posto de trabalho de
acordo com a sua condição física e idade.
Era assim que aos
exemplares adultos de maior porte e em melhores condições físicas
estavam destinadas as tarefas mais pesadas, como puxar os trenós e
acompanhar os homens na caça, enquanto que aos outros, cabia-lhes
ajudar na condução dos rebanhos de renas, que ao que parece foram os
primeiros a criar num regime de semicativeiro, exercer a vigilância
sobre o acampamento e até brincar e vigiar as crianças que as mães,
ocupadas como estavam a curtir as peles, confiavam aos cuidados das
anciãs. Por outro lado, respeitadores dos seus cães, dispensavam do
trabalho os mais velhos e as cadelas prenhes.
Desta forma estas tribos acabaram por desenvolver nos seus cães, a quem
chamavam bjelkier, (leia-se, bielker) e que poderemos traduzir
como "cão branco que se reproduz branco", sentimentos tão
fortes de admiração, confiança e lealdade para com os seres humanos,
que ainda hoje perduram como uma das características mais marcantes da
raça.
No século 18 os russos começaram a explorar a
Sibéria e foi então que se deram conta dos atributos dos bjelkiers.
A sua beleza e temperamento depressa cativaram a família do Czar que
logo se encarregou de os proteger dos estrangeiros, apenas permitindo
que muito excepcionalmente um exemplar fosse oferecido a um membro da
nobreza europeia. O bjelkier tinha atingido o estatuto da
realeza. No entanto também não demorou muito até se aperceberem da
sua utilidade para, na Sibéria, puxarem os trenós dos exploradores e...
dos cobradores de impostos. A reputação entre os exploradores
viria logo a seguir e, um dos que muito contribuiu para ela foi o
explorador, académico e humanista norueguês - Fridtjof Nansen. Homem previdente e meticuloso, Nansen efectuava os preparativos para uma
expedição que pretendia efectuar ao Pólo Norte, quando se apercebeu
de que no ambiente perigosamente frio do Árctico, escolher o tipo certo
de cães para transportar as provisões e os homens através de centenas
de quilómetros de gelo, poderia significar a diferença entre a vida e
a morte.
Depois de investigar cuidadosamente os cães de trenó, Nansen escolheu
o bjelkier para esta tarefa.
Apesar de pouco conhecido fora da Sibéria, este cão tinha já, entre
os nórdicos, uma lendária reputação, não só por ser robusto e
destemido mas também pela sua extraordinária devoção para com os
seres humanos. Nansen achou que o temperamento amigável dos bjelkiers
seria preferível ao dos cães huskies e gronelandeses durante tão
longa jornada. Através de um russo chamado Alexander Trontheim, que
era nem mais nem menos que o encarregado de obter os bjelkiers
para a família do Czar, Nansen adquiriu 40 destes cães a um dos grupos de
nómadas asiáticos que os criava há centenas, talvez mesmo milhares de
anos. Estes grupos de nómadas, embora tivessem cada um o seu nome (Ostiak,
Dolghan, Urak, Nganasans, etc.), eram genericamente conhecidos por
"Samoyedes", nome com que foram baptizados pelos russos, face
à situação de isolamento em que viviam e que significa
"auto-suficientes". As condições extremamente difíceis
enfrentadas pela expedição de Nansen em 1895, não lhe permitiram
atingir o Pólo Norte, contudo, na companhia de Fredrik Hjalmar Johansen
e viajando de esquis, raquetas de neve, trenós puxados pelos bjelkiers
e kayak, estes dois aventureiros chegaram a cerca de 350 km do Pólo
Norte. Embora não tivessem alcançado o seu objectivo, tinham-se
aproximado dele mais do que qualquer outro homem.
De regresso Nansen escreveu relatos empolgantes que enviou a outros
exploradores, sobre o comportamento heróico dos bjelkiers, o que
sem dúvida influenciou grande parte das expedições ao Árctico e
Antárctico que se lhe seguiram. Assim, equipas de bjelkiers
escreveram páginas gloriosas com Borchgrevink, Amundsen, Shackleton e
Robert Scott no Antárctico e com Abruzzi no Árctico. Os exploradores
americanos Fiala e
Baldwin também usaram equipas de bjelkiers. Roald Amundsen, por exemplo, foi o grande vitorioso na corrida para a
conquista do Pólo Sul. Porém, o primeiro animal a lá chegar, no dia
14 de Dezembro de 1911, foi a cadela líder da equipa de Amundsen. Era
uma bjelkier chamada Etah. Dos 52 cães utilizados,
apenas 12 sobreviveram. Cabe agora aqui referir que todas
estas expedições foram brutais para os bjelkiers. Grande parte
deles morreu desnecessariamente porque os exploradores, ainda pouco
familiarizados com a anatomia e fisiologia destes animais, adoptavam
procedimentos que punham em perigo as suas vidas. Por exemplo:
cortavam-lhes o pêlo das caudas, o que fazia com que na falta da cauda
como um filtro para cobrir o nariz enquanto dormiam, os cães morressem
de pneumonia em pouco tempo, ou tosquiavam-nos, causando-lhes a morte
por congelamento. Também o canibalismo era normalmente utilizado como
forma de alimentar os cães. Nansen, em vez de transportar alimento para
os cães ou de caçar focas para os alimentar, abatia os mais débeis
para alimentar os mais fortes.
Imagine-se o sofrimento e ao mesmo tempo a nobreza destes animais
quando, com as patas cortadas pelo gelo, sangrando, famintos e exaustos,
ainda assim continuavam a arrastar os trenós sem nunca vacilarem e até
ao limite das suas forças. Então, eram abatidos para servirem de
alimento aos outros cães e aos seus donos.
Por muito menos do que isto, há quem receba as maiores honrarias e
tenha estátuas ou o seu nome dado a uma rua.
Da expedição de Nansen em 1895 nenhum dos cães sobreviveu. Em jeito
de homenagem a estes e a todos os outros cães que tanto contribuíram
para a história da aventura humana e, porque não dizê-lo, das suas
vaidades, aqui ficam as fotos dos dois últimos cães de Nansen, quando,
já na Terra de Francisco José e depois de o terem ajudado a alcançar
a glória, por já não serem úteis, estavam a poucos momentos de serem
abatidos.
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Ilha Eva-Liv -
Terra de Francisco José (Rússia) |
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Kaifas -
06/08/1895 |
Suggen -
06/08/1895 |
Só os mais fortes e adaptados conseguiram resistir à
crueldade das inóspitas terras geladas. Muito poucos voltaram. Alguns
foram levados pelos exploradores de regresso aos seus países como cães
de companhia, outros foram vendidos a novos exploradores que os voltavam
a utilizar nas suas viagens. Alguns foram parar a Zoológicos onde eram
exibidos.
As expedições ao Árctico e Antárctico deram a conhecer
os bjelkiers a uma pequena comunidade de aventureiros, mas foi um
cientista inglês chamado Ernest Kilburn-Scott, o grande responsável
pela divulgação e difusão da raça no mundo ocidental.
Sendo zoólogo e membro da Royal Zoological Society, Kilburn-Scott teve
a oportunidade de fazer uma série de viagens por toda a zona onde
originariamente viviam estes cães, convivendo com eles durante largas e
frias temporadas, observando e verificando a sua grande funcionalidade
na diversidade de trabalhos que executavam.
Numa das suas viagens realizadas em 1889 à zona de Archangel,
Kilburn-Scott encontrava-se a cerca de 900 milhas a oeste do rio Olenek,
convivendo e aprendendo com os habitantes destas paragens, quando se
apaixonou por um cachorro que ia ter uma existência muito curta, pois
estava destinado à realização de um sacrifício religioso. Após
longas e duras negociações com o chefe da tribo, conseguiu trocá-lo
pelo seu trenó e por parte das roupas que levava. Por causa disto, teve
de fazer a viagem de regresso a pé, carregando a maior parte do tempo o
cachorro sobre os ombros. O cachorro foi baptizado com o nome de Sabarka,
que em russo significa "o mais gordo" e foi o primeiro bjelkier
a ser levado para Inglaterra. Nos anos que se seguiram Kilburn-Scott
adquiriu mais exemplares, fundou o seu próprio canil (Farningham Kennel)
onde deu início à criação selectiva com o fim de estabelecer um
padrão da raça, estudou e classificou exemplares, apresentou-os em
exposições, escreveu inúmeros artigos (inclusivamente aquele que
poderemos considerar como o primeiro estalão da raça) e, em 1909,
decide mudar-lhes o nome de bjelkier para "Samoyede",
em homenagem ás tribos que desde sempre os tinham criado. Funda então
o Samoyede Club.
Em 1912 o Kennel Club aceita finalmente o nome e, "Samoyede",
passa a ser a designação oficial dos bjelkiers fora da
Sibéria, reconhecendo-os ao mesmo tempo como uma raça distinta. Em
1923 o Kennel Club altera o nome oficial para "Samoyed"
retirando o "e" final, designação que ainda hoje se mantém.
Note-se que
a pronuncia correcta é sammy-YED, não é sam-OY-ed ou
SAM-oyed; isto porque na língua nativa não existe o som "oy".
Daqui a razão porque entre os fãs de todo o mundo, são simplesmente
conhecidos por "sammy".
Entre nós a palavra aportuguesou-se e deu, Samoiedo.
A
chegada dos Samoiedos à América não foi menos sensacional do que o
seu começo em Inglaterra.
A princesa de Montyglyon, de origem belga, chamada Mercy d'Argentau, era
uma grande entusiasta por cães e possuía vários exemplares de Collies
e Chow-Chow que costumava apresentar nas principais exposições
europeias. Em 1902 estava em St. Petersburg (Rússia) e quando saía de
um ringue apercebeu-se que era seguida por um belíssimo cão branco que
andava solto. O dono era o Grã Duque Michael, irmão do Czar Nicholas
II, que tendo presenciado a cena lhe disse: «Parece que Moustan
ficou encantado convosco», ao que ela terá respondido «Pagaria
qualquer importância para ter um cão assim, mas sei muito bem que não
está à venda». E tudo ficou por aqui.
No dia seguinte, quando a princesa entrou no compartimento do comboio
que a levaria de regresso à Bélgica, deparou com uma cesta enorme,
enfeitada com rosas e orquídeas. Ao aproximar-se para ver de que se
tratava, uma peluda cabeça branca apareceu por entre as flores. Era o
grande campeão russo Moustan. Na coleira tinha preso um cartão
onde se podia ler «Moustan não está à venda. Nenhum preço
poderia ser pago por ele, mas muito honrados ficaríamos os dois, se o
aceitasse». Em 1904, Mercy d'Argentau emigrou para os Estados Unidos
da América e levou com ela Moustan e três outros Samoiedos que
entretanto tinha adquirido. Moustan passou então a frequentar
grande parte das exposições caninas americanas e em 1906 tornou-se no
primeiro da sua raça a ser registado no American Kennel Club (AKC). Em
1923 o Samoyede Club of America foi fundado em New York. Em 1947 o AKC
seguiu o exemplo dos ingleses e também alterou o nome para Samoyed.
Estes
dois acontecimentos protagonizados por Kilburn-Scott e Mercy d'Argentau
acabaram por ser marcantes no desenvolvimento da raça, uma vez que a
selecção levada a cabo nos dois lados do Atlântico perpetuou tipos de
cães morfologicamente diferentes - que já tinham sido identificados
por Kilburn-Scott - os chamados "tipo urso" e "tipo
lobo". Enquanto os ingleses, que já se encontravam rodeados por uma enorme
quantidade de raças adequadas a todas as necessidades, se deixaram
seduzir pelo aspecto harmonioso, pelo ar doce e sorridente e pelo
temperamento afável destes animais e os converteram, apesar do seu
tamanho, em cães de companhia, procurando acentuar algumas das suas
características estéticas, com particular ênfase para a textura e
quantidade do pêlo, os norte-americanos viram no Samoiedo, antes de
mais um cão de trabalho e, só depois, um cão de companhia e de
exposições.
São assim maiores os Samoiedos americanos (tipo lobo), com uma
estrutura mais atlética e um físico mais potente, um movimento mais
harmonioso e o passo mais alargado, a textura do pêlo é mais dura mas
tanto o pêlo como o subpêlo estão na quantidade adequada às suas
funções, as orelhas mais juntas, o crânio mais estreito, o focinho
mais comprido e a cabeça globalmente menos cónica.
Já os Samoiedos ingleses (tipo urso), que foram sendo seleccionados
tendo em vista o show-dog, são mais pequenos, por vezes demasiado
compactos, com muito pêlo mas a maior parte das vezes com pouco volume,
a cabeça rigorosamente cónica, as orelhas mais pequenas e bem
separadas, com movimentos mais contraídos e muitas vezes com falta de
características que os façam credíveis como cães de trenó.
Perante esta situação - a existência de dois tipos para uma mesma
raça - uma dúvida nos assalta. Ou um dos tipos é correcto e o outro
não, ou então... não são dois tipos. Actualmente os "entendidos" parecem não estar muito interessados em
debater esta questão e, assim, talvez possamos afirmar que o Samoiedo
ideal seria o que tivesse: físico, pêlo e andamento norte-americano e
cabeça inglesa.
A Inglaterra e os Estados Unidos da América
tornaram-se assim nos países adoptivos e principais protectores desta
raça, enquanto que, no seu país de origem, o Samoiedo se via de novo
envolvido numa situação, que por pouco não levou ao seu extermínio.
Após a queda do Czar e com a subida dos comunistas ao poder, em Moscovo
acreditava-se entusiasticamente no rápido desenvolvimento tecnológico
como forma de fazer avançar o país através do século XX. Tinha
chegado a revolução industrial. Os cães de trenó passaram então a
ser considerados como símbolos de um passado que era preciso esquecer e
deviam ser substituídos o mais rapidamente possível por veículos
motorizados.
Como o bom senso parece ser inimigo de todos os processos
revolucionários, os dirigentes russos não acharam melhor maneira de
fazer valer os seus pontos de vista do que, pura e simplesmente, ordenar
o abate de todos os cães de trenó. Em muitos sítios ao longo do norte
da Rússia esta ordem foi cumprida de uma forma brutal. Os cães eram
presos a postes fora das localidades e abatidos. Felizmente, em parte
por causa da vastidão e dificuldades de acessibilidade dos territórios
a norte, não conseguiram levar por diante a sua vontade.
No entanto a revolução comunista na Rússia impediu um melhor
conhecimento destas populações e dos seus cães. As importações de
Samoiedos feitas após o fim da primeira Grande Guerra não foram
significativas e pouco ou nada influenciaram o desenvolvimento da raça
no ocidente. Há mesmo alguns historiadores da raça que defendem que
todos os Samoiedos hoje existentes, são descendentes de precisamente 12
exemplares importados antes do início da primeira Grande Guerra. Estes
exemplares estavam, todos eles, na posse de criadores ingleses que os
registaram e começaram a apresentar nas exposições caninas. Desta
dúzia de Samoiedos, vários eram veteranos da expedição de
Jackson-Harmsworth em 1894 à Terra de Francisco José a norte do
Circulo Polar Árctico, um (Antarctic Buck), foi resgatado de um zoo
australiano onde tinha sido deixado após ter participado na expedição
de Borchgrevink ao Antárctico, outro, era sobrevivente da expedição ao
Pólo Norte efectuada pelo Duque de Abruzzi, alguns chegaram a Inglaterra
pela mão de criadores ingleses e, os restantes, foram fornecidos por
Alexander Trontheim.
Em boa hora o fizeram. |